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A “incrível” capacidade de se esquecer do voto



Você já ouviu falar que algumas pessoas têm “memória de elefante”? É comum encontrar aquela tia distante que se lembra de quando nos machucamos brincando na rua e conta a história em detalhes; os avós, saudosistas de tempos pregressos, relatando nas festas de final de ano as façanhas dos netos desde que eram pequenos até os dias de hoje; e os pais ou responsáveis, que jamais se esquecem de apontar os afazeres diários para os filhos e, caso já não morem mais sob o mesmo teto, fazem uma ligação solicitando uma visita para tratar de assuntos importantes. Em outras palavras, haja memória para tantas situações ou lembranças. Contudo, parece que esta capacidade de memorização possui sérias limitações quando o tema são os candidatos votados nas últimas eleições.

Em recente publicação na revista científica “Pesquisa FAPESP”, foram divulgados resultados da pesquisa ESEB (Estudos Eleitorais Brasileiros) 2014, um survey pós-eleitoral realizado em conjunto por pesquisadores de quatro universidades paulistas, os quais analisam diferentes aspectos da adesão ao regime democrático no país. Dentre os dados apresentados, chamo a atenção para os de “memória do voto do eleitor”. De acordo com eles, em 2002, cerca de dois meses após as eleições, mais de 26% dos eleitores não se lembravam mais em quem haviam votado nos cargos de deputado estadual/federal; em 2006, este número pula para mais de 43%; em 2010, fica superior a 33%; e, em 2014, volta para a casa dos mais de 40%. Tais resultados parecem apontar para uma realidade preocupante do nosso sistema representativo.

Considerando que boa parte dos eleitores não se lembra em quem votou pouco depois das eleições, como podem avaliar seus representantes no pleito subseqüente? Esta falta de memória não prejudica suas escolhas, levando em conta que este será o momento de premiar o representante que desenvolveu corretamente o seu trabalho ou puni-los na urna? O fato de quantidade significativa de eleitores não se lembrar em quem votou para os cargos legislativos de deputados estaduais e federais teria a ver com características do nosso sistema proporcional?

Recentemente, no contexto de discussão da Reforma Política conduzida pela Câmara Federal, o nosso sistema proporcional de lista aberta foi novamente alvo de críticas pela mídia, políticos e opinião pública. Um dos pontos mais polêmicos foi a votação do “distritão” como novo modelo a ser adotado nas eleições para os cargos de vereador, deputados estaduais/distritais e federais. Os deputados que se posicionaram contrariamente na Câmara somaram 267 votos e, os favoráveis à sua adoção, 210 votos. Dentre os argumentos apresentados, um deles dizia que o atual sistema é ininteligível para a maioria dos eleitores, por isso um sistema mais simples (o candidato mais votado passaria a vencer) facilitaria a compreensão dos votantes. Complementar a ele, outro era o de que no atual sistema proporcional os votos são transferidos para os candidatos que ocupam as primeiras posições nas listas e, por isso, o eleitor não tem clareza para onde foi o seu voto. Tais argumentos podem servir para criticarmos alguns aspectos da lista aberta, mas, seriam insuficientes para justificar a falta de memória.

Sabemos que as eleições proporcionais são extremamente concentradas na figura dos candidatos, o que personaliza o pleito. Em tese, lembrar das pessoas é algo simples, desde que acompanhemos o que elas estão fazendo. Com os políticos não deve ser diferente. O contínuo desinteresse dos indivíduos pela política – aliado às dificuldades em se compreender um sistema mais complicado, como é o proporcional se comparado ao majoritário –, bem como a falta de clareza sobre como funcionam nossas casas legislativas, dificultam este processo. Quem sai perdendo é a democracia. Fragiliza-se o sistema representativo, uma vez que o eleitor se vê distante de tudo, apartado da política.

Assim como há pesquisas problematizando nossa “memória do voto”, há também algumas mostrando que a vitamina B12 faz bem para a saúde dos que sofrem com a falta de memória, desde que prescritos por um médico. Talvez valha a pena uma campanha em prol de sua distribuição já nas eleições do ano que vem. Ou, ainda, precisemos de um remédio mais eficiente: educação política para esclarecer as regras do jogo aos cidadãos, iluminando-os sobre os riscos de não termos memória eleitoral.

Fonte: Bruno Souza da Silva/Estadão
Foto: OpenBrasil.org

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